Entrevista com Flávio Canto

Ele entrou no judô para ser um super-herói e, hoje, salva diariamente a vida de centenas de crianças e jovens com seu Instituto Reação. Com 40 anos, o judoca e apresentador Flávio Canto, a estrela da nossa campanha, mostra que, como todos os ídolos dos quadrinhos, é possível cair, levantar a poeira e superar os desafios, seja no tatame, na TV ou no dia a dia.

 

1. Como o judô entrou na sua vida?

Em 1984 fui morar na Califórnia (Estados Unidos) com os meus pais. A gente chegou lá logo depois das Olimpíadas de Los Angeles, que o Joaquim Cruz ganhou. Ele foi o primeiro atleta que me chamou atenção, de comparar os heróis olímpicos aos da minha infância. Foi uma migração de sonho, de ser um herói de carne e osso. Eu sempre fui muito envolvido com esportes. Dos 13 pros 14 anos, comecei o judô. O Aurélio Miguel tinha sido campeão um ano antes nas Olimpíadas de Seul (Coreia do Sul) e o técnico do Aurélio (Geraldo Bernardes) era o mesmo do meu irmão. (Isso) me pareceu mais fácil para ter um caminho olímpico. Foi paixão à primeira vista. Cinco anos depois, já era faixa preta. Fui pra Seleção (Brasileira de Judô), a minha história começou e nunca mais parou. Eu parei de competir em 2012, mas nunca deixei e nunca vou deixar de ser judoca.

 

2. Você ainda treina?

Todo dia eu faço uma atividade física. Hoje em dia eu faço menos de quimono do que gostaria, porque o meu trabalho é muito à noite, assim como o treino principal. Então tento treinar uma, duas vezes por semana de quimono, mas aí faço corrida, natação, muay thai, surf (que é o que eu mais gosto de fazer), nado.

 

3. Como é o seu trabalho no Instituto Reação?

O Reação, no Rio de Janeiro, que tem mais de mil alunos. Ele começou em agosto de 2000 e tem um pouco a ver com essa minha história de ter morado fora, viajado com a seleção. Tive uma vida de nômade e, na maioria das vezes, em países mais desenvolvidos que o nosso, então pra mim foi menos confortável ter um olhar para o Rio sem indignação. Sempre tive vontade de fazer alguma coisa. Comecei com ações pontuais e em 2000 eu fui pra uma Olimpíada que eu tinha perdido a seletiva. Fui para a anterior em 1996, tava há cinco anos na seleção, e foi um susto. Mas vi que a vida não acabava e quando voltei de lá, resolvi experimentar dar aulas de judô. Tinha vontade de fazer uma coisa que mudasse o mundo e não sabia como começar. Como era o que eu sabia fazer de melhor (o judô), vi que dava supercerto.

 

4. Como o esporte pode mudar vidas?

A gente sempre escuta falar isso, que o esporte transforma, que os valores que você pratica no esporte, carrega para fora. Vi com o Reação que isso realmente acontece. Até uma pequena vitória em uma luta é o pontapé inicial para a criança perceber que ela é capaz de sonhar grande, de pensar maior. A gente fala muito que passado não é destino, que ninguém é obrigado a seguir um caminho imposto pela sociedade, que a gente pode sempre sonhar e lutar contra as estatísticas. E o esporte é um ótimo exemplo nesse sentido. A gente tem atletas, a Rafaela Silva, que foi a primeira campeã mundial do judô brasileiro; tem um monte de aluno viajando o mundo, competindo, desde as seleções iniciais, juvenis até a principal. Acho que quanto mais campeão a gente forma dentro do tatame, mais forma fora, porque serve de exemplo para os mais novos sonharem grande.

 

5. Como é a sua trajetória de apresentador? Quais são os principais desafios?

Comecei por acaso. Eu tinha ido para as Olimpíadas de 2004, ganhei medalha e em 2005 eu me machuquei na época do mundial, então fui comentar lutas de judô no Sportv. A partir de então, sempre que tinha uma competição que eu não lutava, eu comentava. Depois me chamaram pra fazer um programa de lutas, o Sansei. Parei de fazer o Sansei, passei a competir muito e já no final da minha carreira, em 2010, me chamaram para voltar a apresentar o Sansei. Voltei e conciliava com minha vida competitiva. Em 2011 começou a acontecer um namoro para eu apresentar o Corujão, (na mesma época) que tive uma infecção no joelho. Passei sete meses parado e fiz quatro cirurgias, não conseguia nem treinar. Já estava mais velho, na dúvida de parar, mas sonhando com (as Olimpíadas de) Londres. Voltei a competir, mas percebi que o tempo que eu teria para ficar bem pras Olimpíadas não ia acontecer. Aí aceitei essa transição. Parei de competir oficialmente quando entrei no Corujão, no começo de 2012. Não me arrependo. No começo foi superdifícil, é uma pressão diferente. O terceiro, quarto programa já foi ao vivo e parecia adrenalina de competição. Para mim era tudo muito novo, me senti um faixa branca. Aos poucos fui ganhando confiança, e fui apresentando outros programas na Globo: Boletim Paralímpico, Boletim das Olimpíadas de Inverno, Mundiais (de judô), Sportv. Fiz as Olimpíadas 2012, na Copa foi uma loucura, era Madruga Sportv, que era de meia-noite às 7 da manhã, 32 dias seguidos, sem sábado nem domingo, ao vivo. Agora estão chegando as Olimpíadas. Todo dia eu aprendo uma coisa nova. Estou adorando.

 

6. O que você faz para manter a forma?

Pelo fato de ter começado tarde no judô, sempre me senti em desvantagem diante dos meus oponentes, porque eram caras mais experientes. Então sempre procurei errar pouco, dormir bem, comer bem. Sempre tive uma vida de atleta. Criei uma relação muito boa com esse equilíbrio e mantive. Para competir, era de uma categoria de peso que eu não precisava perder quase nada para poder ser feliz, conhecer o mundo. Enquanto o pessoal ficava no hotel perdendo peso, eu podia dar uma passeada. E acho que carreguei isso comigo. É zero por conta de estética, é pelo equilíbrio mesmo.

 

7. O que o judô lhe ensinou e que você vai levar pra vida toda?

Acho que coragem. É uma palavra-chave e a gente aprende muito, no momento da luta, a levantar. A gente todo dia cai, mas tá sempre levantando também. Levo isso pra vida. Quanto maior o tombo, mais importante se levantar de uma forma edificante. O Reação surgiu assim, na minha pior derrota, em uma seletiva que esperava ganhar uma medalha e perdi a seletiva. Adoto até pra vida pessoal, afetiva. É enxergar num tombo uma oportunidade de se levantar mais forte.

 

Author: usted

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